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Canetas e remédios

Canetas e pancreatite, vesícula e tireoide: o que se sabe

Pancreatite é rara, problemas de vesícula são mais frequentes e o risco de câncer de tireoide ainda é discutido. Veja o que mostram bulas e estudos.

Revisão médicaDr. Lucas Tadeu MouraEndocrinologista · CRM-SP 125.324 · RQE 36687 · RQE 36686

Revisado em 02 de outubro de 2026
7 min de leitura · 10 referências

Homem de cerca de 60 anos caminhando pelo calçadão à beira-mar pela manhã

Resposta curta

Com as canetas de GLP-1, a pancreatite é rara, mas pode ser grave, e dor abdominal forte e persistente pede atendimento no mesmo dia. Pedra e inflamação na vesícula são mais comuns do que com placebo, principalmente com doses maiores e perda de peso importante. Sobre câncer de tireoide, os estudos em pessoas são divergentes: por precaução, a bula pede cautela em quem tem histórico pessoal ou familiar de carcinoma medular de tireoide.

Por que essas três dúvidas aparecem juntas

Pâncreas, vesícula e tireoide são os órgãos que mais aparecem nas advertências das bulas das canetas de GLP-1, como semaglutida, tirzepatida e liraglutida 16. Também são os que mais geram manchete.

Este texto separa o que é frequente do que é raro, e o que está comprovado do que ainda é discutido. Os efeitos mais comuns, como náusea, diarreia e prisão de ventre, estão em efeitos colaterais das canetas.

Pancreatite: rara, mas precisa de atenção

Pancreatite aguda é uma inflamação do pâncreas, a glândula atrás do estômago que produz enzimas digestivas e insulina. Pode ser leve ou grave.

O que dizem os estudos

EstudoPancreatite com o remédioCom placebo
Estudos de fase 3 da semaglutida para controle de peso0,2%menos de 0,1%
SELECT: semaglutida em pessoas com doença cardiovascular, sem diabetes0,2%0,3%

Fonte: bula da semaglutida para obesidade (Wegovy), com casos confirmados por comitê independente 1.

Uma revisão de 2025 reuniu 62 estudos randomizados com 66.232 pessoas usando diferentes agonistas de GLP-1, com seguimento médio de 43,5 semanas. O risco de pancreatite foi um pouco maior com esses remédios, mas a diferença deixou de ser significativa quando os autores separaram os estudos pelo uso de outros medicamentos 3. No estudo LEADER, com pessoas com diabetes tipo 2 e alto risco cardiovascular acompanhadas por 3,8 anos, a pancreatite foi menos frequente com liraglutida do que com placebo, sem diferença significativa 4.

O que diz a Anvisa

Em fevereiro de 2026, a Anvisa publicou o Alerta de Farmacovigilância nº 02/2026. No Brasil, entre 2020 e 7 de dezembro de 2025, houve 145 notificações de suspeita de pancreatite com dulaglutida, liraglutida, semaglutida ou tirzepatida, 6 delas com morte 2. A agência associa o risco ao uso fora das indicações aprovadas, especialmente para emagrecer sem necessidade clínica 2.

Notificação de suspeita não prova que o remédio causou o problema. Mas é um sinal que a Anvisa acompanha, e que reforça a importância de usar com indicação e acompanhamento.

E o câncer de pâncreas?

Na mesma revisão de 2025, os agonistas de GLP-1 não tiveram associação significativa com câncer de pâncreas no conjunto dos estudos 3. Os autores apontam que muitos estudos não tiveram nenhum caso em nenhum dos grupos, o que limita a análise 3.

Fora do Brasil

O alerta da Anvisa também cita dados do Reino Unido: de 2007 a outubro de 2025, foram 1.296 notificações de pancreatite com esses remédios, incluindo 19 mortes 2. Como no Brasil, são notificações de suspeita, que servem para acompanhar a segurança dos remédios depois que chegam ao mercado.

Na prática

  • A bula orienta suspender o remédio se houver suspeita de pancreatite e não recomeçar se ela for confirmada 1.
  • Quem já teve pancreatite deve usar com precaução 1.
  • Enzima do pâncreas alta no exame, sem sintomas, não indica pancreatite por si só 1.

Vesícula: o problema mais frequente dos três

A vesícula guarda a bile, líquido que ajuda a digerir gordura. Colelitíase é a formação de pedras (cálculos) na vesícula. Colecistite é a inflamação dela, muitas vezes causada por essas pedras.

O que dizem os estudos

Uma revisão de 76 estudos randomizados, com 103.371 pessoas, mostrou que os agonistas de GLP-1 aumentaram o risco de doenças da vesícula e das vias biliares em 37% em relação aos grupos de comparação 5. O aumento foi maior 5:

  • em doses mais altas;
  • em uso mais longo;
  • nos estudos de perda de peso, em que o risco foi pouco mais que o dobro.

Nas doses mais baixas e nos tratamentos mais curtos, a revisão não encontrou aumento de risco 5. Isso ajuda a entender por que o assunto ganhou importância com o uso das canetas em doses altas e por longos períodos para tratar obesidade.

Em números absolutos, o risco continua baixo. Nos estudos da semaglutida para obesidade, a colelitíase ocorreu em 1,6% das pessoas tratadas e em 1,1% das que receberam placebo; a colecistite, em 0,6% e 0,3% 1. Com tirzepatida, a colecistite também foi mais frequente que com placebo, embora com incidência baixa 7.

Por que isso acontece

Perder muito peso favorece a formação de cálculos na vesícula. A bula da liraglutida explica que isso responde só por parte do aumento observado com o remédio 6. Cálculos e colecistite podem levar a internação e cirurgia para retirar a vesícula 6.

Tireoide: o que se sabe e o que ainda é dúvida

A dúvida é sobre o carcinoma medular de tireoide, um tipo raro de câncer que nasce das células C da glândula.

Em animais

Em estudos de dois anos com ratos e camundongos, a semaglutida e a liraglutida causaram tumores de células C da tireoide 16. A bula explica que roedores são particularmente sensíveis a esse mecanismo e que a relevância para humanos é considerada baixa, mas não pode ser completamente excluída 1. Com a liraglutida, esses tumores não apareceram em macacos tratados por 20 meses 6.

Em pessoas

Os estudos não chegam a uma conclusão única:

EstudoQuem foi estudadoResultado
França, 2023Pessoas com diabetes tipo 2 na base nacional de saúde francesa, 2.562 casos de câncer de tireoide comparados com 45.184 controlesUso por 1 a 3 anos associado a risco maior de câncer de tireoide e de carcinoma medular 8
Escandinávia, 2024145.410 pessoas que iniciaram GLP-1 na Dinamarca, Noruega e Suécia, seguidas em média por 3,9 anosSem aumento significativo do risco de câncer de tireoide 9
Revisão de estudos randomizados, 202464 estudos com duração mínima de 52 semanasPequeno aumento do risco relativo de câncer de tireoide em geral, com risco absoluto baixo; sem associação significativa com carcinoma medular 10

Na revisão de 2024, os autores calcularam que seria preciso tratar 1.349 pessoas por 5 anos para surgir um caso a mais de câncer de tireoide, e pediram estudos mais longos 10. Estudos observacionais, como o francês e o escandinavo, mostram associação, não causa.

A própria obesidade está ligada a maior risco de alguns cânceres, incluindo o de tireoide 7.

Na prática

A bula da semaglutida pede cautela em quem tem histórico pessoal ou familiar de carcinoma medular de tireoide ou síndrome de neoplasia endócrina múltipla tipo 2 (NEM 2), uma condição genética que predispõe a esse câncer 1. A bula da liraglutida pede cautela em quem já tem doença da tireoide, porque houve casos de bócio nos estudos de diabetes 6.

Por isso, conte ao médico se alguém da sua família teve câncer de tireoide ou NEM 2.

Como isso entra na decisão de tratar

Esses riscos não são motivo para medo, e também não são motivo para ignorar. São parte da conversa sobre benefício e risco, que o médico faz caso a caso. Na obesidade, os benefícios incluem perda de peso e, com a semaglutida, redução de eventos cardiovasculares em pessoas com doença cardiovascular estabelecida 7.

Para entender quem tem indicação, veja quem pode usar caneta. Para uma visão geral, leia o guia completo das canetas para emagrecer. E, se você está pensando em usar produto sem registro, leia antes caneta manipulada ou do Paraguai: nesses casos, nem a dose é conhecida.

Quando procurar o médico

Procure atendimento no mesmo dia se tiver:

  • dor abdominal intensa e persistente, que pode irradiar para as costas, com náusea e vômitos 2;
  • dor abdominal forte que não passa, com febre, ou pele e olhos amarelados.

Marque consulta se:

  • você já teve pancreatite ou cálculo na vesícula e vai começar ou já usa caneta;
  • alguém da sua família teve carcinoma medular de tireoide ou NEM 2;
  • você tem doença da tireoide conhecida;
  • você notou um caroço novo no pescoço.

Perguntas frequentes

Caneta para emagrecer causa pancreatite?

Pode causar, mas é raro. Nos estudos da semaglutida para obesidade, a pancreatite aguda confirmada ocorreu em 0,2% das pessoas tratadas. A Anvisa alerta que o risco aparece sobretudo no uso sem indicação e sem acompanhamento.

Quais os sintomas de pancreatite com a caneta?

O sinal principal é dor abdominal intensa e persistente, que pode irradiar para as costas e vir com náusea e vômitos. Nesse caso, procure atendimento no mesmo dia.

A caneta aumenta o risco de pedra na vesícula?

Sim. Uma revisão de 76 estudos encontrou risco maior de doenças da vesícula e das vias biliares com esses remédios, principalmente em doses mais altas, uso mais longo e tratamento para perda de peso. Emagrecer muito também favorece a formação de cálculos.

A caneta causa câncer de tireoide?

Não há resposta definitiva. Em ratos e camundongos houve tumores de células C da tireoide, e alguns estudos em pessoas mostraram associação, enquanto um grande estudo escandinavo não mostrou aumento de risco. A bula pede cautela em quem tem histórico pessoal ou familiar de carcinoma medular de tireoide ou síndrome NEM 2.

Quem já teve pancreatite pode usar caneta?

A bula recomenda precaução em quem tem histórico de pancreatite. A decisão é do médico, depois de avaliar a causa da pancreatite anterior e outras opções de tratamento.

Referências

  1. 1.Wegovy (semaglutida): bula para o profissional de saúde. Novo Nordisk / bula aprovada pela Anvisa, 2026.
  2. 2.Anvisa emite alerta para risco de pancreatite aguda associada ao uso indevido de canetas emagrecedoras. Anvisa, 2026.
  3. 3.Evaluating the Rates of Pancreatitis and Pancreatic Cancer Among GLP-1 Receptor Agonists: A Systematic Review and Meta-Analysis of Randomised Controlled Trials. Endocrinology, Diabetes & Metabolism, 2025.
  4. 4.Liraglutide and Cardiovascular Outcomes in Type 2 Diabetes (LEADER). New England Journal of Medicine, 2016.
  5. 5.Association of Glucagon-Like Peptide-1 Receptor Agonist Use With Risk of Gallbladder and Biliary Diseases: A Systematic Review and Meta-analysis of Randomized Clinical Trials. JAMA Internal Medicine, 2022.
  6. 6.Saxenda (liraglutida): bula para o profissional de saúde. Novo Nordisk / bula aprovada pela Anvisa, 2024.
  7. 7.Diretriz Brasileira de Tratamento Farmacológico da Obesidade 2026. ABESO, 2026.
  8. 8.GLP-1 Receptor Agonists and the Risk of Thyroid Cancer. Diabetes Care, 2023.
  9. 9.Glucagon-like peptide 1 receptor agonist use and risk of thyroid cancer: Scandinavian cohort study. BMJ, 2024.
  10. 10.Glucagon-like peptide-1 receptor agonists and risk of thyroid cancer: A systematic review and meta-analysis of randomized controlled trials. Diabetes, Obesity and Metabolism, 2024.

Conteúdo educativo, sem patrocínio. Não substitui consulta: diagnóstico, prescrição e ajuste de dose são decisões do médico que acompanha você. Revisado por Dr. Lucas Tadeu Moura (CRM-SP 125.324 · RQE 36687 · RQE 36686) em 02 de outubro de 2026. Atualizado em 25 de setembro de 2026.