Canetas e remédios
Liraglutida: ainda faz sentido?
A liraglutida emagrece menos que semaglutida e tirzepatida, mas tem a evidência mais longa da classe. Veja em que situações ela ainda entra na conversa.
Revisado em 02 de outubro de 2026
6 min de leitura · 8 referências

Resposta curta
Sim, em algumas situações. A liraglutida é aplicada todo dia e leva a uma perda de peso menor que a da semaglutida e da tirzepatida, mas é o agonista de GLP-1 com mais tempo de uso, tem menos contraindicações e interações e é aprovada no Brasil também para adolescentes a partir de 12 anos. A diretriz brasileira de 2026 a coloca como opção quando os remédios mais potentes não são viáveis.
O que é a liraglutida
A liraglutida é um agonista do receptor de GLP-1, a mesma classe da semaglutida. Ela imita um hormônio do intestino que aumenta a saciedade e ajuda a controlar a glicose. É aplicada com caneta, por injeção sob a pele, uma vez por dia 1.
A liraglutida com dose própria para controle de peso (Saxenda) é indicada para obesidade e não é indicada para tratar diabetes tipo 2 4. Existe outro produto com o mesmo princípio ativo (Victoza), e a bula orienta não usar os dois juntos, nem combinar a liraglutida com outro agonista de GLP-1 4. Em pessoas com diabetes tipo 2, a liraglutida também foi estudada para reduzir eventos cardiovasculares 6.
Quanto peso a liraglutida ajuda a perder
O estudo principal
No estudo SCALE, 3.731 adultos sem diabetes, com IMC de 30 ou mais, ou de 27 ou mais com pressão alta ou colesterol alterado, foram acompanhados por 56 semanas. Todos receberam orientação de mudança de estilo de vida 1.
- Perda média de peso: 8,4 kg com liraglutida e 2,8 kg com placebo 1.
- Perderam ao menos 5% do peso: 63,2% com liraglutida e 27,1% com placebo 1.
- Perderam mais de 10% do peso: 33,1% e 10,6% 1.
Quem participou do SCALE
Vale saber em quem esse resultado foi medido. Os participantes tinham, em média, 45 anos, pesavam 106 kg e tinham IMC de 38; 78,5% eram mulheres e 61,2% tinham pré-diabetes 1. Eventos adversos graves ocorreram em 6,2% do grupo liraglutida e em 5,0% do grupo placebo 1. Os efeitos mais relatados foram náusea e diarreia, na maioria leves ou moderados 1.
Comparada com a semaglutida
O estudo STEP 8 comparou diretamente as duas canetas, por 68 semanas, em 338 adultos com obesidade ou sobrepeso sem diabetes 2:
| Resultado em 68 semanas | Semaglutida semanal | Liraglutida diária |
|---|---|---|
| Perda média de peso | 15,8% | 6,4% |
| Perderam 10% ou mais | 70,9% | 25,6% |
| Pararam o tratamento por qualquer motivo | 13,5% | 27,6% |
| Tiveram efeitos gastrointestinais | 84,1% | 82,7% |
Fonte: STEP 8 2.
A diretriz da ABESO de 2026 classifica a liraglutida como remédio de potência baixa a média, com perda de peso cerca de 4,8% maior que a do placebo em análises de estudos de 1 a 2 anos. Semaglutida e tirzepatida estão no grupo de alta potência 3. As diferenças entre as duas mais potentes estão em semaglutida ou tirzepatida.
Então por que a liraglutida ainda é usada
A diretriz brasileira orienta considerar os remédios de alta potência sempre que possível. Quando eles não são viáveis, por custo, intolerância, contraindicação ou falta do produto, a escolha deve levar em conta outras doenças, segurança, tolerância, comodidade, custo e contraindicações 3. Nesse cenário, a liraglutida tem vantagens próprias.
A evidência mais longa da classe
Segundo a ABESO, a liraglutida tem a maior evidência de longo prazo entre essas opções, além de menos contraindicações e interações com outros remédios 3.
Benefícios além do peso
A diretriz cita 3:
- redução da progressão do pré-diabetes para diabetes tipo 2;
- benefício na apneia obstrutiva do sono;
- benefício na gordura no fígado associada a alterações metabólicas.
Para pessoas com obesidade e doença cardiovascular que não podem usar semaglutida, a diretriz diz que se pode considerar outros remédios, com preferência para liraglutida ou tirzepatida 3. Em pessoas com diabetes tipo 2 e alto risco cardiovascular, o estudo LEADER mostrou, em 3,8 anos, menos infartos, derrames e mortes cardiovasculares somados com liraglutida do que com placebo: 13,0% contra 14,9% 6.
Comparada com os comprimidos
Na mesma faixa de potência da liraglutida estão dois remédios em comprimido: a sibutramina e a combinação naltrexona com bupropiona 3. Segundo a diretriz, a naltrexona com bupropiona tem um perfil de contraindicações mais amplo que o da liraglutida 3. A sibutramina não é recomendada para pessoas com doença cardiovascular estabelecida ou com diabetes tipo 2 e mais algum fator de risco cardiovascular 3. Os detalhes estão em remédios para emagrecer em comprimido.
Na apneia obstrutiva do sono moderada a grave, em pessoas com IMC de 30 ou mais, a diretriz diz que a liraglutida pode ser considerada para reduzir a gravidade da apneia. A opção com recomendação mais forte nesse caso é a tirzepatida 3.
Adolescentes
A bula brasileira permite a liraglutida para controle de peso em adolescentes a partir de 12 anos, com obesidade e peso acima de 60 kg 4. No estudo com 251 adolescentes de 12 a 17 anos, a liraglutida reduziu mais o IMC que o placebo em 56 semanas. Depois que o remédio foi suspenso, o IMC voltou a subir mais no grupo que tinha usado liraglutida 5.
Efeitos colaterais e cuidados
Os efeitos mais comuns são gastrointestinais: náusea, prisão de ventre, diarreia e vômitos, principalmente no início 3. Na análise da ABESO, a chance de parar o tratamento por efeitos adversos foi 2,8 vezes maior que com placebo 3.
Outros pontos da bula 4:
- risco maior de pedra e inflamação na vesícula;
- pancreatite aguda, rara, que obriga a suspender o remédio;
- cautela em quem tem doença da tireoide;
- aumento da frequência cardíaca, que deve ser acompanhado;
- contraindicação na gravidez: se a pessoa deseja engravidar, o remédio deve ser suspenso.
Mais detalhes em canetas e pancreatite, vesícula e tireoide e em efeitos colaterais das canetas.
Aplicação diária: vantagem ou desvantagem?
Depende da pessoa. Para quem esquece compromissos semanais, a rotina diária pode ajudar. Para outras, uma injeção por dia pesa mais do que uma por semana. No STEP 8, a proporção de pessoas que pararam o tratamento foi maior com liraglutida 2; o estudo não isolou o motivo.
A dose da liraglutida começa baixa e sobe aos poucos, em intervalos de pelo menos uma semana, para melhorar a tolerância gastrointestinal 4. Quem define e ajusta a dose é o médico.
Liraglutida no mercado brasileiro
A liraglutida, como todos os agonistas de GLP-1, só é vendida com receita retida, válida por 90 dias 8. Veja como funciona em receita retida.
Em abril de 2026, a Anvisa informou que havia cinco medicamentos de liraglutida registrados no país, de dois laboratórios diferentes, e sete pedidos em avaliação. Na mesma data, negou dois pedidos de registro de liraglutida que não atenderam a todos os requisitos técnicos 7.
O SPA.com.br não publica preço nem compara marcas. Nenhuma versão registrada é apresentada aqui como melhor que outra.
Quando o tratamento acaba
Como acontece com outras canetas, o peso tende a voltar quando o remédio é suspenso. No estudo com adolescentes, o IMC subiu mais depois da suspensão no grupo que usou liraglutida 5. A diretriz brasileira recomenda o tratamento farmacológico também para manter o peso perdido, com reavaliações periódicas 3. Leia mais em o que acontece quando para a caneta.
Quando procurar o médico
- Se você usa liraglutida e quer saber se outra opção faz mais sentido agora.
- Se os efeitos gastrointestinais não melhoram com o tempo ou impedem de comer e beber.
- Se você pretende engravidar ou descobriu uma gravidez.
- Se o seu filho adolescente tem obesidade e você quer entender as opções de tratamento.
- No mesmo dia, se tiver dor abdominal forte e persistente, com ou sem vômitos.
Perguntas frequentes
Liraglutida emagrece quanto?
No estudo SCALE, adultos com obesidade ou sobrepeso sem diabetes perderam em média 8,4 kg em 56 semanas com liraglutida 3,0 mg, contra 2,8 kg com placebo, ambos com orientação de dieta e exercício. O resultado varia muito de pessoa para pessoa.
Liraglutida ou semaglutida: qual emagrece mais?
A semaglutida. No estudo STEP 8, que comparou as duas por 68 semanas, a perda média de peso foi de 15,8% com semaglutida e 6,4% com liraglutida. A escolha, porém, depende também de tolerância, contraindicações, acesso e outras doenças da pessoa.
Liraglutida é aplicada todo dia?
Sim. A liraglutida é injetada uma vez por dia, enquanto semaglutida e tirzepatida são semanais. A dose é aumentada aos poucos para melhorar a tolerância, e quem define e ajusta a dose é o médico.
Adolescente pode usar liraglutida?
A bula brasileira permite o uso para controle de peso em adolescentes a partir de 12 anos com obesidade e peso acima de 60 kg, junto com alimentação saudável e atividade física. A indicação e o acompanhamento são feitos pelo médico.
Liraglutida precisa de receita retida?
Sim. A liraglutida está na lista de agonistas de GLP-1 que, desde junho de 2025, só podem ser vendidos com retenção da receita, válida por 90 dias.
Referências
- 1.A Randomized, Controlled Trial of 3.0 mg of Liraglutide in Weight Management (SCALE Obesity and Prediabetes). New England Journal of Medicine, 2015.
- 2.Effect of Weekly Subcutaneous Semaglutide vs Daily Liraglutide on Body Weight in Adults With Overweight or Obesity Without Diabetes: The STEP 8 Randomized Clinical Trial. JAMA, 2022.
- 3.Diretriz Brasileira de Tratamento Farmacológico da Obesidade 2026. ABESO, 2026.
- 4.Saxenda (liraglutida): bula para o profissional de saúde. Novo Nordisk / bula aprovada pela Anvisa, 2024.
- 5.A Randomized, Controlled Trial of Liraglutide for Adolescents with Obesity. New England Journal of Medicine, 2020.
- 6.Liraglutide and Cardiovascular Outcomes in Type 2 Diabetes (LEADER). New England Journal of Medicine, 2016.
- 7.Anvisa nega registro a produtos à base de semaglutida e liraglutida. Anvisa, 2026.
- 8.Instrução Normativa nº 360, de 23 de abril de 2025 (texto reproduzido pela Secretaria da Saúde do Espírito Santo). Anvisa, 2025.
Conteúdo educativo, sem patrocínio. Não substitui consulta: diagnóstico, prescrição e ajuste de dose são decisões do médico que acompanha você. Revisado por Dr. Lucas Tadeu Moura (CRM-SP 125.324 · RQE 36687 · RQE 36686) em 02 de outubro de 2026. Atualizado em 25 de setembro de 2026.