Exames
Hemoglobina glicada e pré-diabetes
O que a hemoglobina glicada mede, os critérios de pré-diabetes e diabetes da SBD e da ADA, quando o exame engana e o que fazer com o resultado.
Revisado em 02 de outubro de 2026
8 min de leitura · 6 referências

Resposta curta
A hemoglobina glicada (HbA1c) mostra a média da glicose dos últimos dois a três meses. Pela Diretriz da SBD (edição 2026) e pelos Standards of Care da ADA 2026, HbA1c de 5,7% a 6,4% indica pré-diabetes e de 6,5% ou mais indica diabetes, desde que o resultado seja confirmado. Anemia, doença renal, gravidez e variantes da hemoglobina podem distorcer o exame, e pré-diabetes é um sinal de risco que responde bem a mudanças de estilo de vida.
O que a hemoglobina glicada mede
A hemoglobina é a proteína que carrega oxigênio dentro das hemácias, os glóbulos vermelhos. Parte da glicose do sangue gruda nela de forma permanente, e quanto mais glicose circula, maior é essa fração "glicada".
Como a hemácia vive cerca de 120 dias, a hemoglobina glicada (HbA1c) funciona como uma média da glicose desse período, com peso maior para as semanas mais recentes 2. Na prática, a SBD descreve o exame como um reflexo da glicemia média dos últimos dois a três meses 1.
Por isso a HbA1c não muda com o que você comeu ontem, e o exame não exige jejum 2. Ela também varia menos de um dia para o outro com estresse, doença aguda ou mudança recente na alimentação do que a glicemia de jejum 2.
Os critérios de pré-diabetes e diabetes
Os números abaixo são de diretriz, não do laboratório. A Sociedade Brasileira de Diabetes usa, na Diretriz edição 2026 (capítulo de diagnóstico revisado em julho de 2024), os seguintes critérios para adultos fora da gravidez 1:
| Exame | Normal | Pré-diabetes | Diabetes |
|---|---|---|---|
| Hemoglobina glicada (HbA1c) | abaixo de 5,7% | 5,7% a 6,4% | 6,5% ou mais |
| Glicemia de jejum | abaixo de 100 mg/dL | 100 a 125 mg/dL | 126 mg/dL ou mais |
| Glicemia 1 hora após 75 g de glicose (TTGO-1h) | abaixo de 155 mg/dL | 155 a 208 mg/dL | 209 mg/dL ou mais |
| Glicemia 2 horas após 75 g de glicose (TTGO-2h) | abaixo de 140 mg/dL | 140 a 199 mg/dL | 200 mg/dL ou mais |
Fonte: Diretriz da SBD, edição 2026 1. Jejum significa 8 a 12 horas sem ingerir calorias.
A Associação Americana de Diabetes (ADA), nos Standards of Care in Diabetes 2026, usa os mesmos limites para HbA1c, glicemia de jejum e TTGO de 2 horas 2. A diferença é que a SBD incorporou o TTGO de 1 hora, que a ADA não adota:
| Critério | SBD, edição 2026 1 | ADA, Standards of Care 2026 2 |
|---|---|---|
| HbA1c de pré-diabetes | 5,7% a 6,4% | 5,7% a 6,4% |
| HbA1c de diabetes | 6,5% ou mais | 6,5% ou mais |
| TTGO de 1 hora | Usado (155 e 209 mg/dL) | Não usado |
| Idade para começar o rastreamento | 35 anos, ou antes com excesso de peso e fator de risco | 35 anos, ou antes com excesso de peso e fator de risco |
Além desses exames, a glicemia colhida a qualquer hora de 200 mg/dL ou mais, com sintomas típicos (sede excessiva, urina em grande volume, perda de peso sem explicação), também fecha o diagnóstico de diabetes 1 2.
Um exame só não fecha o diagnóstico
As duas diretrizes pedem confirmação quando não há sintomas claros:
- SBD: se só um exame vier alterado, ele deve ser repetido. O diagnóstico de diabetes pode ser feito na mesma coleta quando a glicemia de jejum e a HbA1c estão ambas acima do limite 1.
- ADA: são necessários dois resultados alterados, que podem ser de exames diferentes na mesma coleta (por exemplo, HbA1c e glicemia de jejum) ou do mesmo exame em dois momentos 2.
Por isso a SBD recomenda, quando possível, pedir glicemia de jejum e HbA1c juntas no rastreamento 1. Os dois exames se complementam: uma pessoa pode ter só um deles alterado 1.
Método importa: laboratório certificado
O valor de 6,5% só tem sentido quando o exame é feito por um método padronizado. A SBD e a ADA pedem métodos certificados pelo NGSP (programa americano de padronização da hemoglobina glicada), alinhados ao padrão do estudo DCCT 1 2.
Os aparelhos de ponta de dedo, como os usados em campanhas e farmácias, têm restrição para diagnóstico. A ADA limita esse uso a aparelhos aprovados para diagnóstico e operados em laboratórios qualificados 2, e as diretrizes laboratoriais da ADA e da AACC afirmam que testes rápidos não devem ser usados para diagnosticar diabetes 4.
A faixa de referência impressa no laudo pode variar entre laboratórios e métodos. Para diagnóstico, o que vale são os limites da diretriz, lidos pelo médico.
Quando a hemoglobina glicada engana
A HbA1c mede a glicose de forma indireta, pela hemoglobina. Tudo que muda a hemoglobina ou o tempo de vida da hemácia pode distorcer o resultado para mais ou para menos 2.
| Situação | Por que interfere |
|---|---|
| Anemias, perda de sangue, transfusão | A vida média das hemácias muda 1 2 |
| Variantes da hemoglobina e hemoglobinopatias (ex.: traço falciforme, talassemia) | Alguns métodos são afetados pela hemoglobina diferente 1 2 |
| Gravidez e pós-parto | A renovação das hemácias muda 1 2 |
| Doença renal crônica, diálise, uso de eritropoetina | A renovação das hemácias é alterada 1 2 |
| Tratamento do HIV com antirretrovirais | Relação entre HbA1c e glicose alterada 1 2 |
| Deficiência de G6PD, deficiência de ferro, retirada do baço, cirrose | Alteram a renovação das hemácias 2 |
Nessas situações, o diagnóstico deve se apoiar nos critérios de glicose 2.
A SBD também registra que a HbA1c tem menor sensibilidade que o TTGO de 2 horas: no ponto de corte de 6,5%, ela identifica de 47% a 67% dos casos de diabetes que o TTGO detecta, com especificidade de 98% a 99% 1. Ou seja, quando está alta, costuma estar certa, mas um valor normal não exclui diabetes em quem tem alto risco. A diretriz ainda lembra que pessoas afrodescendentes podem ter HbA1c mais alta do que a glicose sugere 1.
Pré-diabetes é um sinal de risco, não uma sentença
Pré-diabetes não é diabetes. É uma faixa em que o risco de desenvolver a doença é maior, e esse risco é contínuo: cresce à medida que o valor se aproxima do limite 2.
A SBD cita a coorte ARIC, que acompanhou 11.092 adultos por cerca de 14 anos. Em comparação com quem tinha HbA1c entre 5% e 5,5%, o risco de desenvolver diabetes foi 1,86 vez maior com HbA1c entre 5,5% e 6%, e 4,48 vezes maior entre 6% e 6,5% 1. A ADA considera de risco muito alto quem tem HbA1c acima de 6,0% 2.
Por isso, a SBD destaca que o pré-diabetes é um grupo heterogêneo: quem está mais perto do limite do diabetes tende a evoluir mais 1. Em adultos com pré-diabetes, a diretriz brasileira recomenda ainda o TTGO de 1 hora, que pode revelar diabetes ainda não detectado ou refinar a estimativa de risco 1.
Com que frequência repetir
| Situação no rastreamento | Reavaliação recomendada pela SBD 1 |
|---|---|
| Exames normais e menos de 3 fatores de risco | Em 3 anos |
| Exames normais e 3 ou mais fatores de risco | Em 12 meses |
| Pré-diabetes | Em 12 meses |
| Apenas um exame no critério de diabetes, os outros normais | Em 6 meses |
A ADA recomenda acompanhar quem tem pré-diabetes pelo menos uma vez por ano 3.
O que muda o rumo do pré-diabetes
A melhor evidência vem do Diabetes Prevention Program (DPP). O estudo incluiu 3.234 adultos com glicemia alterada em jejum e após sobrecarga de glicose, com IMC médio de 34, acompanhados por 2,8 anos em média 5. O programa de estilo de vida tinha como metas perder pelo menos 7% do peso e fazer pelo menos 150 minutos de atividade física por semana. Ele reduziu em 58% a incidência de diabetes; a metformina reduziu em 31%, ambos em comparação com placebo 5.
A ADA 2026 recomenda encaminhar adultos com sobrepeso ou obesidade e alto risco a programas que busquem redução de 5% a 7% do peso inicial e 150 minutos ou mais de atividade física moderada por semana 3. Na análise do DPP, cada quilo perdido se associou a 16% menos risco de progredir para diabetes 3.
A SBD recomenda mudança do estilo de vida para todas as pessoas com pré-diabetes, e considera o uso de remédio em situações específicas, definidas pelo médico 6. A ADA registra que alguns medicamentos usados no tratamento da obesidade, como a semaglutida e a tirzepatida, reduziram o surgimento de diabetes em pessoas com pré-diabetes 3. Se isso faz sentido para você, a conversa é com o médico; veja quem pode usar caneta.
Entender a obesidade como doença crônica ajuda a tirar a culpa dessa conversa: leia Obesidade é doença. E, se o seu médico pediu insulina e HOMA-IR junto com a glicada, entenda o que esse número significa.
Quando procurar o médico
Leve o exame ao médico que pediu, ou a um endocrinologista. Não mude remédios nem comece dietas restritivas por conta própria por causa de um resultado.
Procure avaliação:
- Sem demora, se houver sede intensa, urina em grande quantidade, perda de peso sem explicação ou visão turva 1.
- Em consulta programada, se a HbA1c veio em 5,7% ou mais, ou a glicemia de jejum em 100 mg/dL ou mais, para confirmar o resultado e planejar o acompanhamento 1 2.
- Antes de confiar no número, se você tem anemia, doença renal, está grávida, usa antirretrovirais ou tem alguma alteração da hemoglobina 1 2.
- Mesmo com exame normal, se você tem 35 anos ou mais e nunca fez rastreamento, ou tem excesso de peso com outro fator de risco, como pressão alta, histórico familiar de diabetes ou síndrome dos ovários policísticos 1.
Veja também quando procurar um endocrinologista e os outros textos da seção Exames.
Perguntas frequentes
Hemoglobina glicada de 5,7% já é pré-diabetes?
Pelos critérios da SBD e da ADA, sim: a faixa de pré-diabetes vai de 5,7% a 6,4%. O resultado precisa ser interpretado pelo médico junto com a glicemia de jejum e com situações que distorcem o exame, como anemia.
Precisa de jejum para fazer hemoglobina glicada?
O exame de hemoglobina glicada não exige jejum. Mas a SBD recomenda, quando possível, dosar a glicemia de jejum na mesma coleta, o que exige jejum de 8 a 12 horas.
Pré-diabetes vira diabetes?
Nem sempre. O risco é contínuo e aumenta à medida que o valor se aproxima de 6,5%. No estudo DPP, um programa de mudança de estilo de vida reduziu em 58% a chance de evoluir para diabetes em cerca de três anos.
O teste de hemoglobina glicada de farmácia serve para diagnóstico?
Em geral, não. As diretrizes pedem métodos certificados pelo NGSP, feitos em laboratório, e restringem o uso de aparelhos de ponta de dedo para diagnóstico.
Com que frequência repetir o exame se tenho pré-diabetes?
A SBD recomenda reavaliar em 12 meses, e a ADA recomenda acompanhar pelo menos uma vez por ano. O médico pode pedir antes se os valores estiverem perto do limite do diabetes.
Referências
- 1.Diagnóstico de diabetes mellitus. Diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes, edição 2026. Sociedade Brasileira de Diabetes (Rodacki M et al.), 2026.
- 2.2. Diagnosis and Classification of Diabetes: Standards of Care in Diabetes—2026. Diabetes Care (American Diabetes Association), 2026.
- 3.3. Prevention or Delay of Diabetes and Associated Comorbidities: Standards of Care in Diabetes—2026. Diabetes Care (American Diabetes Association), 2026.
- 4.Guidelines and Recommendations for Laboratory Analysis in the Diagnosis and Management of Diabetes Mellitus. Diabetes Care (Sacks DB et al., ADA e AACC), 2023.
- 5.Reduction in the incidence of type 2 diabetes with lifestyle intervention or metformin. New England Journal of Medicine (Diabetes Prevention Program Research Group), 2002.
- 6.Tratamento farmacológico do pré-diabetes. Diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes. Sociedade Brasileira de Diabetes (Giacaglia LR et al.), 2022.
Conteúdo educativo, sem patrocínio. Não substitui consulta: diagnóstico, prescrição e ajuste de dose são decisões do médico que acompanha você. Revisado por Dr. Lucas Tadeu Moura (CRM-SP 125.324 · RQE 36687 · RQE 36686) em 02 de outubro de 2026. Atualizado em 25 de setembro de 2026.