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HOMA-IR: o que o número significa

O HOMA-IR é um cálculo feito com glicose e insulina de jejum. Entenda de onde ele vem, por que o resultado varia tanto e por que não serve para diagnóstico.

Revisão médicaDr. Lucas Tadeu MouraEndocrinologista · CRM-SP 125.324 · RQE 36687 · RQE 36686

Revisado em 02 de outubro de 2026
7 min de leitura · 8 referências

Homem de cerca de 45 anos aguardando atendimento na recepção clara de um laboratório

Resposta curta

O HOMA-IR é uma estimativa de resistência à insulina calculada com a glicose e a insulina de jejum, criada em 1985 para pesquisa. O resultado depende muito do método de dosagem da insulina, que não é padronizado entre laboratórios, e não existe um ponto de corte universal. Por isso, o número isolado não diagnostica doença, e as diretrizes não recomendam dosar insulina de rotina: o que orienta o cuidado são glicemia, hemoglobina glicada, cintura, pressão e colesterol.

De onde vem o HOMA-IR

HOMA é a sigla em inglês para "modelo de avaliação da homeostase". Ele foi descrito em 1985 por Matthews e colaboradores, que montaram um modelo matemático da relação entre glicose e insulina em jejum 1.

A ideia é simples. Em jejum, o pâncreas libera insulina suficiente para manter a glicose estável. Se o corpo responde mal à insulina (a chamada resistência à insulina), o pâncreas precisa de mais insulina para segurar a mesma glicose. Comparando os dois valores, o modelo estima quanto de resistência à insulina existe e como está funcionando a célula beta, a célula do pâncreas que produz insulina 1.

O "IR" no nome vem de insulin resistance, resistência à insulina.

Como o número é calculado

Os laboratórios usam uma fórmula simplificada do modelo original 3:

Unidade da glicoseFórmula
mmol/Lglicose de jejum × insulina de jejum (µU/mL) ÷ 22,5
mg/dL (a mais usada no Brasil)glicose de jejum × insulina de jejum (µU/mL) ÷ 405

As duas contas são a mesma coisa: 405 é 22,5 multiplicado por 18, o fator que converte glicose de mmol/L para mg/dL. A constante 22,5 corresponde ao produto de valores considerados típicos de uma pessoa saudável, insulina de 5 µU/mL e glicose de 4,5 mmol/L 3.

Como a glicose muda rápido depois de comer, a coleta precisa ser feita em jejum; fora do jejum o cálculo perde o sentido 3.

O que o estudo original mostrou, e o que ele avisou

No artigo de 1985, a estimativa do HOMA teve boa correlação com o clamp euglicêmico, o método de referência para medir resistência à insulina 1. O clamp é um procedimento complexo, feito em geral apenas em laboratórios de pesquisa 6.

Mas os próprios autores registraram um limite importante: a precisão da estimativa é baixa, com coeficiente de variação de 31% para a resistência à insulina, o que "limita o seu uso" 1. Em termos práticos, a mesma pessoa pode ter números bem diferentes em coletas próximas.

Em 2004, o grupo que criou o modelo publicou uma revisão chamada "Uso e abuso do modelo HOMA". A conclusão foi que o HOMA é útil em estudos de coorte e epidemiológicos, que comparam grupos de pessoas, desde que os dados de entrada sejam confiáveis e a interpretação seja cuidadosa 2.

Por que o resultado varia tanto entre laboratórios

O ponto mais frágil do HOMA-IR é a dosagem da insulina. A glicose é medida de forma bem padronizada; a insulina, não.

Um grupo de trabalho da Associação Americana de Diabetes (ADA) comparou 10 métodos comerciais de dosagem de insulina com um método de referência por espectrometria de massa. Em 7 dos 10 métodos, o desvio passou de 15,5% em 36% a 100% das amostras testadas 4. As diretrizes laboratoriais da ADA e da Associação Americana de Química Clínica (AACC), de 2023, afirmam que ainda não existe método padronizado para medir insulina e que as tentativas de harmonizar os kits comerciais produziram resultados muito discordantes 6.

Como a insulina entra direto na multiplicação, qualquer diferença de método muda o HOMA-IR na mesma proporção. Comparar o seu resultado com o de outra pessoa, ou com um exame seu feito em outro laboratório, é pouco confiável.

Não existe um ponto de corte universal

Você vai encontrar na internet e em laudos números como 2,5, 2,7 ou 3,0. Nenhum deles é um limite universal.

No Brasil, o estudo BRAMS avaliou 1.203 adultos sem diabetes, de 18 a 78 anos. O ponto de corte para resistência à insulina foi definido como o percentil 90 do grupo saudável (297 pessoas): HOMA-IR acima de 2,7 5. Para identificar síndrome metabólica, o corte foi 2,3, com sensibilidade de 76,8% e especificidade de 66,7% 5. Ou seja, o índice deixou de apontar cerca de 1 em cada 4 pessoas com síndrome metabólica e apontou como alterada cerca de 1 em cada 3 pessoas sem ela.

Esses valores foram obtidos com um método específico de dosagem de insulina e em uma população específica. Por isso, a faixa de referência do seu laudo pode ser outra, e é ela que vale como comparação, sempre com a interpretação do médico.

O que o HOMA-IR consegue fazerO que ele não consegue fazer
Comparar grupos de pessoas em pesquisas 2Dar diagnóstico de doença em uma pessoa
Estimar, de forma aproximada, a resistência à insulina em jejum 1Medir com precisão; a variação chega a 31% 1
Ser calculado com uma única coleta de sangue 2Ser comparado entre laboratórios com métodos diferentes 4 6
Ajudar em situações clínicas específicas, a critério do médicoSubstituir glicemia, hemoglobina glicada, cintura, pressão e colesterol

O que dizem as diretrizes sobre pedir insulina e HOMA-IR

ADA e AACC (2023). A recomendação é que, na maioria das pessoas com diabetes ou com risco de diabetes ou doença cardiovascular, a dosagem de insulina de rotina não seja feita, porque esses testes são úteis principalmente em pesquisa 6. O documento explica que os valores de insulina não acrescentam muito à previsão de risco já feita com dados clínicos e exames tradicionais, e que as medidas de resistência à insulina previram o risco de diabetes e de doença coronariana apenas de forma moderada, sem um limiar claro 6. Mais útil, segundo a diretriz, é medir as consequências da resistência à insulina: pressão arterial, IMC, tolerância à glicose e colesterol e triglicerídeos 6.

Sociedades brasileiras. A I Diretriz Brasileira de Síndrome Metabólica, assinada em 2005 pela SBEM, pela SBD, pela ABESO e pelas sociedades de cardiologia e hipertensão, adotou uma definição que não exige comprovar resistência à insulina. Para o diagnóstico, bastam exames de jejum, sem teste de tolerância à glicose nem métodos de medida da resistência à insulina, como o clamp ou o HOMA-IR 7.

Na diretriz vigente da SBD (edição 2026), os critérios para diagnosticar pré-diabetes e diabetes são a glicemia de jejum, o teste de tolerância à glicose e a hemoglobina glicada. O HOMA-IR não está entre eles 8.

Se o seu HOMA-IR veio alto

Um HOMA-IR acima da referência do laudo não é diagnóstico de diabetes nem de outra doença. Ele sugere que vale olhar com atenção para o metabolismo, e é isso que o médico vai fazer com outros dados:

  • Glicemia de jejum e hemoglobina glicada, que definem se há pré-diabetes ou diabetes 8. Veja como ler a hemoglobina glicada.
  • Circunferência da cintura, pressão arterial, triglicerídeos e HDL, que compõem a síndrome metabólica 7.
  • História e exame físico, incluindo sinais como a acantose nigricans, o escurecimento da pele em dobras como o pescoço 6.

Se esses dados estão normais, um HOMA-IR isolado raramente muda a conduta. Se estão alterados, o tratamento é guiado por eles, não pelo HOMA. Para entender o quadro completo, leia Resistência à insulina: sinais, exames e tratamento.

Também vale lembrar: o índice não foi bem validado em quem usa insulina 3. E, por ser um cálculo com duas dosagens, ele herda os erros das duas.

Quando procurar o médico

Leve o resultado ao médico que pediu o exame, ou a um endocrinologista, junto com glicemia, hemoglobina glicada e perfil de colesterol, se tiver. Não comece remédio, suplemento ou dieta restritiva por causa do HOMA-IR.

Procure avaliação se:

  • a glicemia de jejum ou a hemoglobina glicada vieram acima da faixa;
  • você tem ganho de peso, aumento da cintura, pressão alta ou triglicerídeos altos;
  • há manchas escuras e aveludadas no pescoço ou nas axilas;
  • você tem síndrome dos ovários policísticos (veja SOP e dificuldade para emagrecer) ou histórico de diabetes na família;
  • surgiram sede excessiva, urina em grande quantidade ou perda de peso sem explicação, que são sinais de glicose alta e pedem consulta rápida 8.

Se ainda não sabe a quem recorrer, veja quando procurar um endocrinologista.

Perguntas frequentes

Qual é o valor normal do HOMA-IR?

Não existe um valor normal universal. O ponto de corte depende da população estudada e do método usado para dosar a insulina. Um estudo brasileiro (BRAMS) sugeriu 2,7, mas esse número vale para aquele método e aquela população, e o laudo de cada laboratório pode trazer outra referência.

HOMA-IR alto quer dizer que vou ter diabetes?

Não necessariamente. O HOMA-IR é uma estimativa imprecisa e não prevê o risco melhor do que dados simples como peso, glicemia e pressão. Quem avalia o risco de diabetes são exames como glicemia de jejum e hemoglobina glicada, interpretados pelo médico.

Preciso pedir insulina e HOMA-IR no check-up?

Na maioria das pessoas, não. As diretrizes laboratoriais da ADA e da AACC não recomendam dosar insulina de rotina em quem tem diabetes ou risco de diabetes; esses testes são úteis principalmente em pesquisa.

Qual exame diagnostica resistência à insulina?

O método de referência é o clamp euglicêmico hiperinsulinêmico, um procedimento complexo usado em pesquisa. Na prática clínica, o médico avalia os sinais e as consequências da resistência à insulina, como circunferência da cintura, glicemia, triglicerídeos, HDL e pressão arterial.

Posso repetir o HOMA-IR em outro laboratório para comparar?

A comparação é pouco confiável. Os métodos de dosagem de insulina dão resultados diferentes para a mesma amostra, então o HOMA-IR pode mudar só porque o laboratório mudou.

Referências

  1. 1.Homeostasis model assessment: insulin resistance and beta-cell function from fasting plasma glucose and insulin concentrations in man. Diabetologia (Matthews DR et al.), 1985.
  2. 2.Use and abuse of HOMA modeling. Diabetes Care (Wallace TM, Levy JC, Matthews DR), 2004.
  3. 3.Surrogate markers of insulin resistance: A review. World Journal of Diabetes (Singh B, Saxena A), 2010.
  4. 4.Toward standardization of insulin immunoassays. Clinical Chemistry (Miller WG et al.), 2009.
  5. 5.HOMA1-IR and HOMA2-IR indexes in identifying insulin resistance and metabolic syndrome: Brazilian Metabolic Syndrome Study (BRAMS). Arquivos Brasileiros de Endocrinologia & Metabologia (Geloneze B et al.), 2009.
  6. 6.Guidelines and Recommendations for Laboratory Analysis in the Diagnosis and Management of Diabetes Mellitus. Diabetes Care (Sacks DB et al., ADA e AACC), 2023.
  7. 7.I Diretriz Brasileira de Diagnóstico e Tratamento da Síndrome Metabólica. Arquivos Brasileiros de Cardiologia (SBH, SBC, SBEM, SBD e ABESO), 2005.
  8. 8.Diagnóstico de diabetes mellitus. Diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes, edição 2026. Sociedade Brasileira de Diabetes (Rodacki M et al.), 2026.

Conteúdo educativo, sem patrocínio. Não substitui consulta: diagnóstico, prescrição e ajuste de dose são decisões do médico que acompanha você. Revisado por Dr. Lucas Tadeu Moura (CRM-SP 125.324 · RQE 36687 · RQE 36686) em 02 de outubro de 2026. Atualizado em 25 de setembro de 2026.