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Obesidade

Obesidade infantil: quando levar ao endocrinologista

Como a obesidade é diagnosticada em crianças, quais sinais pedem avaliação do endocrinologista e como a família pode ajudar sem culpa e sem estigma.

Revisão médicaDr. Lucas Tadeu MouraEndocrinologista · CRM-SP 125.324 · RQE 36687 · RQE 36686

Revisado em 02 de outubro de 2026
8 min de leitura · 10 referências

Pai e filha de uns 9 anos andam de bicicleta lado a lado em uma rua arborizada

Resposta curta

O primeiro passo é o pediatra, que acompanha o IMC da criança em curvas por idade e sexo. O endocrinologista entra quando há sinais de causa hormonal ou genética, como crescimento em altura mais lento que o esperado ou obesidade muito precoce com fome intensa, ou quando já há complicações, como alteração de glicose, pressão alta, gordura no fígado ou apneia do sono. Obesidade infantil é doença com muitas causas, não culpa da criança nem da família.

Primeiro, uma palavra sobre culpa

Obesidade na infância não é falta de caráter da criança nem fracasso dos pais. A diretriz da Endocrine Society, sociedade internacional de endocrinologia, descreve a obesidade infantil como resultado de uma predisposição genética que encontra um ambiente favorável, desde a gestação até a adolescência 3.

A Academia Americana de Pediatria alerta que o estigma, o preconceito por causa do peso, é comum e faz mal. Longe de motivar, ele se associa a episódios de comer compulsivo, isolamento, fuga das consultas, menos atividade física e mais ganho de peso 4. Profissionais de saúde também reproduzem esse preconceito, e isso precisa mudar 4.

Por isso, este texto fala de sinais e de cuidado. Não de culpados.

Quantas crianças vivem com obesidade

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), em 2022, 390 milhões de crianças e adolescentes de 5 a 19 anos tinham excesso de peso no mundo, e 160 milhões tinham obesidade. Entre 1990 e 2022, a proporção com excesso de peso nessa faixa passou de 8% para 20% 1. Em 2024, 35 milhões de crianças com menos de 5 anos tinham excesso de peso 1.

No Brasil, o Estudo Nacional de Alimentação e Nutrição Infantil (ENANI-2019) mediu crianças com menos de 5 anos em todo o país. O excesso de peso nessa faixa subiu de 6% em 2006 para 10,1% em 2019 6.

A OMS lembra que a obesidade na infância traz, além de riscos físicos, prejuízo emocional e social, dificuldades escolares e estigma 1.

Como a obesidade é diagnosticada na criança

Em crianças e adolescentes, não se usam as faixas de IMC dos adultos. O IMC é comparado com curvas da OMS para a idade e o sexo, em percentis ou escores z, que mostram onde a criança está em relação a outras da mesma idade 2.

A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) usa esta classificação 2:

IMC para a idadeDe 0 a 5 anosDe 5 a 19 anos
Escore z entre +1 e +2 (percentil 85 a 97)Risco de sobrepesoSobrepeso
Escore z entre +2 e +3 (percentil 97 a 99,9)SobrepesoObesidade
Escore z acima de +3 (acima do percentil 99,9)ObesidadeObesidade grave

Na prática, quem faz esse acompanhamento é o pediatra, nas consultas de rotina, anotando peso e altura na curva de crescimento. A Endocrine Society sugere calcular e rever o IMC pelo menos uma vez por ano 3.

O IMC também tem limites na criança. Uma revisão de 37 estudos, com mais de 53 mil crianças e adolescentes, mostrou que o IMC deixou de identificar mais de um quarto dos que tinham excesso de gordura medido por exame 7. Por isso o pediatra também olha a cintura, a história e o exame físico 2. Mais sobre esses limites em IMC serve para quê e onde ele falha.

Pediatra ou endocrinologista?

O pediatra é a porta de entrada e acompanha a maioria dos casos. O endocrinologista, de preferência o endocrinologista pediátrico, costuma entrar em situações específicas.

Sinais de que pode haver causa hormonal

Causas hormonais de obesidade na infância, como hipotireoidismo, falta de hormônio do crescimento ou excesso de cortisol, são raras 3. Elas costumam ter uma pista em comum: a criança cresce menos em altura do que o esperado, enquanto ganha peso 3.

Por isso, a Endocrine Society recomenda não pedir exames hormonais de rotina, a menos que a altura ou a velocidade de crescimento estejam abaixo do esperado para a família e a fase da puberdade 3. Criança que ganha peso e cresce bem em altura dificilmente tem causa hormonal.

A mesma diretriz também recomenda não dosar insulina para avaliar criança com obesidade 3.

Sinais de que pode haver causa genética

Algumas formas raras de obesidade têm causa genética. A Endocrine Society sugere investigar genética quando a obesidade é muito intensa e começa antes dos 5 anos, especialmente se houver fome muito intensa e difícil de saciar, sinais de síndromes genéticas ou história de obesidade grave na família 3.

Sinais de que já há complicações

A Endocrine Society recomenda que crianças e adolescentes com IMC a partir do percentil 85 sejam avaliados para complicações 3. A comissão internacional de 2025 definiu 13 critérios de obesidade clínica para crianças e adolescentes, ou seja, sinais de que o excesso de gordura já prejudica o funcionamento de órgãos 8.

Entre os sinais que a SBP orienta investigar na consulta estão ronco, respiração pela boca e pausas na respiração durante o sono, falta de ar aos esforços, dor ou inchaço nas articulações das pernas, alterações na pele e alterações menstruais 2. Exames podem mostrar glicose alterada, colesterol ou triglicérides altos, pressão alta ou gordura no fígado 2.

Resumo: quando pensar no endocrinologista

SituaçãoPor que importa
Crescimento em altura mais lento que o esperado, com ganho de pesoPode indicar causa hormonal 3
Obesidade intensa antes dos 5 anos, com fome muito difícil de saciarPode indicar causa genética 3
Glicose, colesterol, triglicérides ou pressão alteradosComplicações que pedem acompanhamento especializado 23
Ronco com pausas na respiração, cansaço durante o diaPode ser apneia do sono 2
Obesidade grave, ou sem resposta ao acompanhamento com o pediatraPode precisar de equipe especializada e de outras opções de tratamento 3

Como é o tratamento

Começa pela família inteira

A Endocrine Society recomenda mudanças de hábitos intensivas, adequadas à idade, respeitando a cultura e centradas na família 3. Envolver a família toda, e não só a criança, é uma das sugestões da diretriz 3.

Entre as orientações da diretriz estão 3:

  • atividade física diária, com meta de 60 minutos;
  • limitar o tempo de tela fora da escola a 1 a 2 horas por dia;
  • cuidar do sono;
  • avaliar questões emocionais e encaminhar para apoio quando necessário.

Essas são metas gerais da diretriz. Como adaptar para cada criança é conversa para ter com o pediatra e a equipe.

Remédios e cirurgia, só em situações específicas

A Endocrine Society sugere remédio só depois que um programa intensivo de mudança de hábitos não foi suficiente, e sempre com médico experiente nesse tratamento 3. A diretriz é de 2017, anterior aos remédios mais novos.

Desde então, surgiram estudos em adolescentes. No STEP TEENS, 201 jovens de 12 a 17 anos com obesidade usaram semaglutida semanal ou placebo por 68 semanas, junto com orientação de estilo de vida. O IMC caiu em média 16,1% com o remédio e subiu 0,6% com placebo 10. Se um remédio faz sentido, qual e em que dose, é decisão médica individual. Veja o panorama em Canetas para emagrecer: guia completo.

A cirurgia bariátrica em adolescentes segue regras próprias no Brasil. A Resolução CFM nº 2.429/2025 permite a partir dos 16 anos, com os mesmos critérios dos adultos e avaliação de maturidade, compreensão dos riscos e apoio familiar. Entre 14 e 16 anos, só em casos excepcionais, com IMC acima de 40 e complicações que ameacem a vida 9. A comparação entre cirurgia e remédio está em Cirurgia bariátrica ou caneta: como se decide.

O que a família pode fazer em casa

Algumas atitudes ajudam sem machucar:

  • Não comente o corpo da criança nem use apelidos. A Academia Americana de Pediatria recomenda que as famílias ajudem a combater o estigma do peso em casa e na escola 4.
  • Use palavras neutras e sem julgamento, o mesmo cuidado que a Academia Americana de Pediatria pede aos profissionais de saúde 4.
  • Mude para todos: refeições, passeios e horários de tela valem para a casa inteira 3.
  • Fique atento ao bullying. A SBP orienta investigar bullying na consulta 2.
  • Leve às consultas de rotina, mesmo quando a criança parece bem 3.

Vale lembrar: a obesidade na infância aumenta a chance de obesidade na vida adulta. Uma revisão de 15 estudos estimou que cerca de 55% das crianças com obesidade continuam com obesidade na adolescência, e cerca de 80% dos adolescentes com obesidade continuam na vida adulta 5. A mesma revisão mostrou que 70% dos adultos com obesidade não tinham obesidade na infância 5. Ou seja, não é destino, e cuidar cedo faz diferença.

Para entender a obesidade como doença crônica, leia Obesidade é doença: o que isso muda no tratamento.

Quando procurar o médico

Leve a criança ao pediatra se:

  • o IMC está acima da faixa esperada na curva de crescimento, ou subiu de faixa rapidamente;
  • ela ronca alto, tem pausas na respiração durante o sono ou muito sono durante o dia;
  • tem cansaço fora do comum em brincadeiras e esportes;
  • reclama de dor nos joelhos, nos quadris ou nos pés;
  • está sendo alvo de apelidos ou exclusão por causa do corpo, ou mostra tristeza, isolamento ou comer escondido.

Peça avaliação do endocrinologista, de preferência pediátrico, se:

  • a criança cresce menos em altura do que o esperado enquanto ganha peso;
  • a obesidade começou antes dos 5 anos, é intensa e vem com fome difícil de saciar;
  • os exames mostram glicose, colesterol, triglicérides ou pressão alterados;
  • o acompanhamento com o pediatra não está sendo suficiente.

Perguntas frequentes

Como saber se meu filho tem obesidade?

Em crianças, o IMC é comparado com curvas da OMS por idade e sexo. Dos 5 aos 19 anos, a Sociedade Brasileira de Pediatria considera obesidade o IMC entre os escores z +2 e +3, e obesidade grave acima de +3. Quem faz essa avaliação é o pediatra, nas consultas de rotina.

Obesidade infantil pode ser hormonal?

Pode, mas é raro. A diretriz da Endocrine Society diz que causas hormonais costumam vir com crescimento em altura mais lento que o esperado. Se a criança cresce bem em altura, uma causa hormonal é menos provável, e exames hormonais de rotina não são recomendados.

Criança com obesidade vai ser adulto com obesidade?

Nem sempre, mas o risco é maior. Uma revisão de estudos estimou que cerca de 55% das crianças com obesidade continuam com obesidade na adolescência e cerca de 80% dos adolescentes com obesidade continuam na vida adulta. Por isso vale cuidar cedo, sem alarme e sem culpa.

Existe remédio para obesidade em adolescentes?

Existem estudos com adolescentes, como o STEP TEENS, com semaglutida em jovens de 12 a 17 anos. A diretriz da Endocrine Society só sugere remédio depois de um programa intensivo de mudança de hábitos, com médico experiente. A decisão é sempre individual e médica.

Devo colocar meu filho de dieta?

Não por conta própria. As diretrizes recomendam mudanças para a família inteira, e não só para a criança, com acompanhamento profissional. Restringir comida e comentar o corpo da criança pode aumentar o sofrimento e piorar a relação com a comida.

Referências

  1. 1.Obesity and overweight (fact sheet). Organização Mundial da Saúde, 2025.
  2. 2.Obesidade na infância e adolescência: manual de orientação, 3ª edição. Sociedade Brasileira de Pediatria, 2019.
  3. 3.Pediatric Obesity: Assessment, Treatment, and Prevention. An Endocrine Society Clinical Practice Guideline. Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism, 2017.
  4. 4.Stigma Experienced by Children and Adolescents With Obesity. Pediatrics (American Academy of Pediatrics), 2017.
  5. 5.Predicting adult obesity from childhood obesity: a systematic review and meta-analysis. Obesity Reviews, 2016.
  6. 6.Nutrition transition in Brazilian children under 5 years old from 2006 to 2019. Cadernos de Saúde Pública, 2023.
  7. 7.Diagnostic performance of body mass index to identify obesity as defined by body adiposity in children and adolescents: a systematic review and meta-analysis. Pediatric Obesity, 2015.
  8. 8.Definition and diagnostic criteria of clinical obesity. The Lancet Diabetes & Endocrinology, 2025.
  9. 9.Resolução CFM nº 2.429/2025: normatiza as cirurgias para o tratamento cirúrgico da obesidade e doença metabólica. Conselho Federal de Medicina, 2025.
  10. 10.Once-Weekly Semaglutide in Adolescents with Obesity (STEP TEENS). New England Journal of Medicine, 2022.

Conteúdo educativo, sem patrocínio. Não substitui consulta: diagnóstico, prescrição e ajuste de dose são decisões do médico que acompanha você. Revisado por Dr. Lucas Tadeu Moura (CRM-SP 125.324 · RQE 36687 · RQE 36686) em 02 de outubro de 2026. Atualizado em 25 de setembro de 2026.