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Hormônios e peso

Resistência à insulina: sinais, exames e tratamento

O que é resistência à insulina, por que quase nunca dá sintoma, quais exames fazem sentido e o que realmente reduz o risco de diabetes.

Revisão médicaDr. Lucas Tadeu MouraEndocrinologista · CRM-SP 125.324 · RQE 36687 · RQE 36686

Revisado em 02 de outubro de 2026
6 min de leitura · 7 referências

Homem de cerca de 50 anos nadando numa piscina pública

Resposta curta

Resistência à insulina é quando músculo, gordura e fígado respondem mal à insulina, e o pâncreas precisa produzir mais para manter a glicose no lugar [1]. Em geral não dá sintoma, e o exame que o médico usa na prática é o de glicose (glicemia de jejum, hemoglobina glicada ou curva glicêmica), não a dosagem de insulina [1][2]. O tratamento com melhor evidência é perder peso e se movimentar, às vezes com remédio [4][5].

O que é resistência à insulina

A insulina é o hormônio, produzido pelo pâncreas, que ajuda a glicose do sangue a entrar nas células e virar energia. Na resistência à insulina, as células dos músculos, da gordura e do fígado respondem mal a esse sinal 1.

No começo, o pâncreas compensa: produz mais insulina e a glicose continua normal. Com o tempo, essa compensação pode não dar conta, a glicose sobe e surge o pré-diabetes, que é a glicose acima do normal, mas ainda abaixo do ponto de corte do diabetes 1. Se nada muda, o caminho pode seguir até o diabetes tipo 2.

A resistência à insulina também está ligada a outros problemas: síndrome metabólica (pressão alta, cintura grande e alterações de gordura no sangue), gordura no fígado e colesterol e triglicérides alterados 1.

Quem tem mais chance de ter

Segundo o Instituto Nacional de Diabetes e Doenças Digestivas e Renais dos EUA (NIDDK), aumentam a chance de resistência à insulina e pré-diabetes 1:

  • sobrepeso, obesidade ou cintura grande;
  • idade a partir de 35 anos (crianças e adolescentes também podem ter);
  • histórico de diabetes na gestação ou de bebê com cerca de 4 kg ou mais ao nascer;
  • tabagismo, inclusive cigarro eletrônico;
  • síndrome dos ovários policísticos, síndrome de Cushing, acromegalia e apneia do sono;
  • uso prolongado de alguns remédios, como corticoides, alguns antipsicóticos e alguns medicamentos para HIV.

Idade e histórico familiar não mudam. Peso, atividade física e cigarro, sim 1. A gordura que se acumula dentro do abdome pesa mais nessa conta do que o peso total; entenda em gordura visceral: o que é e como medir.

Sinais: por que quase nunca há sintoma

Pessoas com resistência à insulina e pré-diabetes em geral não têm sintomas 1. Cansaço depois de comer ou vontade de doce não servem para diagnosticar.

O que o médico procura são sinais e condições que costumam andar junto. A Associação Americana de Diabetes (ADA) lista como associadas à resistência à insulina a obesidade grave, a doença hepática gordurosa associada à disfunção metabólica e a acantose nigricans 3. A acantose aparece como manchas escuras e aveludadas em dobras da pele, como nuca e axilas.

Em crianças e adolescentes, a ADA inclui entre os sinais de alerta a acantose, a pressão alta, as alterações de colesterol e triglicérides e a síndrome dos ovários policísticos 3.

Quais exames fazem sentido

Aqui está a parte que mais confunde. O NIDDK informa que os profissionais de saúde podem não testar a resistência à insulina em si, porque esse teste é usado principalmente em pesquisa 1. O que se investiga na prática é a consequência dela: a glicose.

Os critérios de pré-diabetes usados pela Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) e pelas diretrizes internacionais são 12:

ExamePré-diabetesDiabetes
Glicemia de jejum100 a 125 mg/dL126 mg/dL ou mais
Hemoglobina glicada (HbA1c)5,7% a 6,4%6,5% ou mais
Curva glicêmica, 1 hora155 mg/dL ou mais209 mg/dL ou mais
Curva glicêmica, 2 horas140 a 199 mg/dL200 mg/dL ou mais

A diretriz da SBD de 2026 recomenda, quando a curva glicêmica é indicada, usar o valor de 1 hora, por ser mais prático e detectar alterações mais cedo 2. Ela também recomenda que pessoas com pré-diabetes sejam reavaliadas em 12 meses 2. Detalhes sobre a glicada estão em hemoglobina glicada e pré-diabetes.

E o HOMA-IR, a insulina de jejum?

O HOMA-IR é uma conta feita com a glicemia e a insulina de jejum. Ele tem boa correlação com o clamp euglicêmico hiperinsulinêmico, o exame de referência para medir a ação da insulina, que é trabalhoso e fica restrito à pesquisa 6.

A insulina de jejum isolada tem limitações importantes: é uma medida indireta e se correlaciona de forma fraca com a ação da insulina no corpo 6. A diretriz internacional de síndrome dos ovários policísticos de 2023, por exemplo, diz que as dosagens de insulina disponíveis na clínica têm relevância limitada e não devem ser usadas na rotina 7.

Um HOMA-IR "alto" com glicose normal não é diagnóstico de doença, e um HOMA-IR "normal" não afasta risco. O número pode ajudar em situações específicas, a critério do médico. Explicamos o cálculo e seus limites em HOMA-IR: o que o número significa.

Tratamento: o que reduz o risco de verdade

Perder peso e se movimentar

O estudo mais conhecido é o Diabetes Prevention Program (DPP). Ele acompanhou 3.234 adultos com glicose alterada, com IMC médio de 34, por cerca de 2,8 anos 5. O grupo de estilo de vida tinha meta de perder pelo menos 7% do peso e fazer 150 minutos de atividade física por semana.

Comparado ao placebo, o estilo de vida reduziu o surgimento de diabetes em 58%, e a metformina, em 31% 5. Segundo a ADA, a perda de peso foi o fator principal: cada quilo perdido reduziu em 16% o risco de progressão para diabetes ao longo de 3,2 anos 4.

Por isso a ADA recomenda, para adultos com sobrepeso ou obesidade e alto risco, programas estruturados com meta de perder pelo menos 5% a 7% do peso inicial, alimentação com menos calorias e pelo menos 150 minutos semanais de atividade moderada 4. Não há uma dieta única: a ADA cita a mediterrânea e a com menos carboidrato como padrões com evidência 4.

Remédios

A metformina é o remédio com dados mais sólidos para prevenir diabetes em quem tem pré-diabetes. A ADA recomenda considerá-la em adultos de alto risco, principalmente de 25 a 59 anos com IMC de 35 ou mais, glicemia de jejum de 110 mg/dL ou mais, glicada de 6% ou mais, ou histórico de diabetes na gestação 4. Quem usa por muito tempo deve checar a vitamina B12 periodicamente 4.

A ADA também afirma que os tratamentos baseados em GLP-1 para controle de peso, em quem tem sobrepeso ou obesidade, são muito benéficos e devem ser considerados 4. Veja como funcionam em canetas para emagrecer: guia completo. Ao mesmo tempo, a diretriz registra que faltam dados de longo prazo para usar outros remédios, além da metformina, só para prevenir diabetes 4. Quem indica, escolhe e ajusta qualquer remédio é o médico.

Resistência à insulina e peso: mão dupla

O excesso de peso favorece a resistência à insulina, e a perda de peso a melhora, como mostrou o DPP 15. Resistência à insulina não é sentença nem culpa: é um estado metabólico que responde a tratamento.

Em mulheres, ela é um dos mecanismos da síndrome dos ovários policísticos 7, assunto de SOP e dificuldade para emagrecer.

Quando procurar o médico

Procure avaliação médica se você:

  • tem sobrepeso ou obesidade e nunca fez glicemia de jejum ou hemoglobina glicada;
  • tem mais de 35 anos, histórico familiar de diabetes, diabetes na gestação ou síndrome dos ovários policísticos;
  • notou manchas escuras e aveludadas na nuca ou nas axilas;
  • recebeu resultado de pré-diabetes e não repetiu os exames em 12 meses;
  • tem sede excessiva, urina em grande quantidade ou perdeu peso sem explicação, que são sintomas típicos de glicose alta e pedem avaliação rápida 2.

Perguntas frequentes

Quais são os sintomas da resistência à insulina?

Na maioria das vezes, nenhum. O que o médico observa são sinais e condições associadas, como excesso de gordura abdominal, pressão alta, triglicérides alto, síndrome dos ovários policísticos e acantose nigricans, que são manchas escuras e aveludadas na pele de dobras como nuca e axilas.

Preciso fazer o exame de insulina ou HOMA-IR?

Em geral, não. O Instituto Nacional de Diabetes dos EUA (NIDDK) informa que o teste de resistência à insulina é usado principalmente em pesquisa, e a diretriz internacional de SOP de 2023 não recomenda dosar insulina na rotina. O que guia a conduta são glicemia de jejum, hemoglobina glicada e, quando indicado, a curva glicêmica.

Resistência à insulina é o mesmo que pré-diabetes?

Não. A resistência à insulina costuma vir antes: o pâncreas compensa produzindo mais insulina. Quando essa compensação deixa de ser suficiente, a glicose sobe e aparece o pré-diabetes, definido por glicemia de jejum de 100 a 125 mg/dL ou hemoglobina glicada de 5,7% a 6,4%.

Resistência à insulina tem cura?

Ela pode melhorar bastante. No Diabetes Prevention Program, a mudança de estilo de vida com meta de perder pelo menos 7% do peso reduziu em 58% o surgimento de diabetes em quase 3 anos. O acompanhamento precisa ser contínuo, porque o risco volta se o peso volta.

Metformina é indicada para resistência à insulina?

Às vezes. A Associação Americana de Diabetes recomenda considerar metformina para prevenir diabetes em quem tem alto risco, principalmente adultos de 25 a 59 anos com IMC de 35 ou mais, glicose mais alta ou histórico de diabetes na gestação. Quem indica e define a dose é o médico.

Referências

  1. 1.Insulin Resistance & Prediabetes. National Institute of Diabetes and Digestive and Kidney Diseases (NIDDK).
  2. 2.Diagnóstico de diabetes mellitus. Diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes, Ed. 2026. Sociedade Brasileira de Diabetes, 2026.
  3. 3.2. Diagnosis and Classification of Diabetes: Standards of Care in Diabetes—2026. Diabetes Care (American Diabetes Association), 2026.
  4. 4.3. Prevention or Delay of Diabetes and Associated Comorbidities: Standards of Care in Diabetes—2026. Diabetes Care (American Diabetes Association), 2026.
  5. 5.Reduction in the incidence of type 2 diabetes with lifestyle intervention or metformin. New England Journal of Medicine, 2002.
  6. 6.Avaliação laboratorial e diagnóstico da resistência insulínica. Arquivos Brasileiros de Endocrinologia & Metabologia, 2006.
  7. 7.Recommendations From the 2023 International Evidence-based Guideline for the Assessment and Management of Polycystic Ovary Syndrome. Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism, 2023.

Conteúdo educativo, sem patrocínio. Não substitui consulta: diagnóstico, prescrição e ajuste de dose são decisões do médico que acompanha você. Revisado por Dr. Lucas Tadeu Moura (CRM-SP 125.324 · RQE 36687 · RQE 36686) em 02 de outubro de 2026. Atualizado em 25 de setembro de 2026.